Encontrei um artigo escrito em 2004 por meu pai, Milton Bigucci, empreendedor há mais de 60 anos na construção civil. Intitulado “Como é difícil produzir neste país”, descrevia um Brasil travado por burocracia, insegurança jurídica, juros altos e um ambiente pouco acolhedor para quem investe e gera emprego.
Agora, em março de 2026, percebo que grande parte da crítica dele continua atual. As palavras de meu pai ecoam: “a burocracia estatal, os altos juros e a sanha arrecadatória inviabilizam qualquer produção”. Passaram-se mais de duas décadas e a pergunta é inevitável: esse diagnóstico pertence a 2004 ou poderia ter sido escrito agora?
Dados do Banco Mundial e do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação) confirmam: o Brasil ainda é o país onde se gasta mais tempo para pagar impostos, 149 dias de trabalho por ano. O sistema tributário é complexo e instável. A diferença é que hoje muitos não apenas reclamam, mas deixam o País. Relatório da Henley & Partners revelou que o Brasil deve registrar a saída líquida de 1.200 milionários em 2025, contra 800 em 2024, migrando cerca de US$ 8,4 bilhões em riqueza para o Exterior.
Quando um empreendedor parte, leva mais que dinheiro: leva planejamento, conhecimento, experiência e redes de relacionamento. Em vez de gerar empregos aqui, passa a criar oportunidades em países mais convidativos. Estudo já apontava em 2004 que o Brasil era mal avaliado em políticas públicas, ambiente regulatório e sistema tributário. Nada mudou.
A burocracia excessiva, múltiplas certidões, lentidão administrativa e custos elevados continuam a travar o empreendedor. Em 2004, ao menos não havia tributação sobre dividendos. Já em 2025, a Lei 15.270 introduziu essa cobrança, elevando o custo de empreender e reacendendo o debate sobre competitividade, justamente quando outros mercados buscam atrair capital e talento.
O resultado é um País com enorme potencial, mas que repele os próprios erros. Em vez de criar condições favoráveis ao investimento e à produção, o governo empurra o empreendedor para fora. A lei que tributa dividendos foi vendida como avanço social ao elevar a isenção do Imposto de Renda para os mais pobres. Boa ideia, mas a conta recai sobre quem produz, enquanto os custos da máquina pública seguem intocáveis.
Como dizia e ainda diz meu pai: “Cortem os custos de verdade e não apenas transfiram a carga para o empresário”.
O calendário marca 2026, mas para muitos empresários e jovens talentos, o cenário lembra perigosamente 2004. A diferença é que hoje sair do Brasil deixou de ser hipótese distante e virou alternativa concreta.
O futuro chegou, mas o problema do passado permanece. O artigo de 2004, escrito pelo pai, repete-se 22 anos depois na escrita do filho. Tomara que no futuro o neto não precise escrever o mesmo texto. Só não enxerga quem não quer.
Marcos Bigucci é advogado, diretor da MBigucci e CEO da Master Managers LLC-EUA.


